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Naquela pedra tinha mel

Curta-metragem realizado a partir do episódio de queda do monumento a Bernardo Mascarenhas em dezembro de 2021. 

E a chuva surgiu como se estivesse lavando a alma daquela praça. Era dezembro. Apesar de nos dezembros eu sempre chorar as dores de minha avó. Apesar de, se deve viver. Apesar de, se deve mastigar. Foi apesar de, que uma árvore caiu em cima do monumento de Bernardo Mascarenhas. E logo ali, dentro dele, tinha uma colmeia de abelhas em plena atividade. E logo ali, fora, escorria um líquido dourado por entre os dedos das pessoas que estavam na praça e vasculhavam os destroços, que parecia transformar as suas mãos em um vidro translúcido alaranjado, refletido como um sol de fim de tarde, que esquenta a gente em um dia morno e sem esperança. E quando o vento assobiava, nossos dedos viravam balas de caramelo. Em uma vibração que nos fazia tocar o que não conseguíamos ver. E levantávamos eles para o céu; e colocávamos na boca. Com o tempo, a polícia e os bombeiros chegaram acabando com a grande festa da reparação; do meu povo, da minha raça. Quero esticar esse momento e dizer que este desejo está entre nós, em caráter viscoso e açucarado, com letras de ouro, que saem da minha voz para a sua, dizendo que, naquela pedra tinha mel.

Direção e Montagem
Lucas Soares
Direção de fotografia
Marize Moreno
Colorização
Caio Dezidério
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Trailler de "Naquela pedra tinha mel", 2022. 

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Trabalhos

Não havia um relógio para acordar, ou ainda um simples galo que anunciasse, como um prenúncio, que uma centelha de vermelho ou mesmo de alaranjado se alastra pelo céu no horizonte daquele lugar. O Zeca tinha deixado a gente.
Encontrei com ela passando pela capela — descansando por conta das pernas inchadas; com uma sacola de alguma coisa que espetava, que segundo ela fazia um chá muito bom para as juntas. Pegou sua sacola, olhou pra dentro da capela, e disse: “Sabe porque o defunto nunca é enterrado de costas, meu fio? Quando vemos alguém de bruço, nos vemos e nos enxergamos no centro da espinha...E é por isso Miltinho, que as pessoas quando são enterradas não são colocadas de bruço”.
Comecei a ligar os pontos. À noite, um galo cantou.

Agradecimentos
Á tod_s funcionárias e funcionários do IA (Instituto de Arte Contemporânea de Ouro Preto)
Luiz Fernando P. Mirabel 
Helena Frade

© 2022 Lucas Soares

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