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A memória pode ser compreendida como um conjunto de ideias e impressões que partem da experiência para reafirmar o vivido. Ela é uma construção intelectual epsíquica de um evento do passado, porém, as memórias não são estáticas, elas podem ser ressignificadas a partir de um novo olhar sobre a experiência. Talvez um fato que tenha ficado registrado na nossa memória possa ser reconstruído a partir de novas vivências ou o surgimento de novos fatos sobre ele. Algo muito comum na história, onde descobertas e vestígios modificam nossa maneira de olhar e compreender o passado. Há muitas histórias possíveis na memória. Sabendo disso, ela tornou-se um importante desencadeador de poéticas e fricções na arte contemporânea. Eventos importantes e traumáticos marcaram a experiência de diversos povos e sociedades ao longo do século XX e XXI, e artistas apropriam-se da arte para expressar as dores e as experiências coletivas e comuns das pessoas. A memória é um processo individual que se agarra nas experiências vividas na coletividade. É essa complexidade das teias da memória que vemos na obra de Lucas Soares. Quais memórias incrustam a pele e as experiências de um artista tão jovem? Quais seleções são ativadas, sublimadas ou momentaneamente esquecidas? O conflito entre o passado e o presente, o dito e o não dito, o que deve ser lembrado e esquecido permeiam sua poética. A memória por estar ancorada na experiência vivida flertará sempre com a realidade, mas o tempo e as novas experiências muitas vezes embaralham o real e confundem a lembrança do que ocorreu. Apagar da memória tudo o que nos causa dor, à princípio parece interessante, porém, nossa subjetividade se constrói tanto das experiências positivas quanto das negativas. Superar e aprender com as experiências que não foram boas é a melhor forma de lidar com elas. O que é lembrado ou esquecido depende de quem narra a história, isso possibilita que um mesmo fato ou experiência adquira novo significado a partir de quem olha para ele. As memórias que desencadearam as criações de Lucas Soares possuem um ponto de partida, mas o ponto de chegada vai depender do percurso percorrido, ou seja, entre as obras criadas e o público há um amplo território a ser explorado. As imagens da exposição Memento (2019) dialogam com diferentes temporalidades, materialidades e procedimentos artísticos que confundem o olhar do espectador que busca definições simplistas. É necessário vivenciar outro tempo, buscar uma atenção profunda que possibilite contemplar em repouso. As obras vistas hoje não serão as mesmas de amanhã, não somente porque mudamos a partir das experiências que nos atravessam, mas porque Lucas Soares lida com materialidades vivas. Oxidação, corrosão e ferrugem, processos naturais e temporais do metal que expostos ao contato com a atmosfera transforma cores, texturas, cria pontos e manchas. A memória e a ferrugem corroem, mas também criam. Lidar com a memória dos objetos, da matéria e da vida (re)vivida a partir da arte é o convite que Lucas Soares nos faz. Você tem tempo para aceitar esse convite?

 

Prof. Dr. Francione Oliveira Carvalho

Chefe do Departamento de Educação da FACED

Texto sobre a exposição "Memento"

Juiz de Fora , 2019

Lucas Soares e um convite à 

contemplação em repouso

Há algo de extraordinário ao se pensar numa sala de estar como um cômodo feito especialmente para se estar, afinal, o que é preciso para que se esteja presente? Tempo? Escrevo para assegurar que estou, mas ainda sem saber se o que trago nessa carta tem mais de mim ou do que vejo aqui. Se no crochet, para concluir um ponto é necessário voltar dois, antes de prosseguir, gostaria de retornar à palavra que dá nome a essa exposição. Daqui de onde estou, Memento é também encontro. 

Descubro numa breve pesquisa que há uma expressão, memento mori, que é o sussurro que te lembra de que um dia você vai morrer. Mas memento é também prece que se reza, ou ainda, uma simples nota, uma reminiscência

Não sei ainda de qual desses sentidos gosto mais, nem se todos estão aqui. Sei que essa exposição é sobre um íntimo.

Paul Valéry falou certa vez que o que há de mais profundo no homem é a pele. Gosto de pensar que o que importa está localizado justamente no que é superficial. A pele que reveste nosso corpo é também o lugar do encontro e início das trocas com o outro. Sem a pele não não há subjetividade possível, nem mesmo sua ficção.

Penso que o que Lucas Soares faz em seus trabalhos é um processo de investigação dessa pele própria, da corrosão dela, ou então da forma como é tecida. É uma espécie de arqueologia do eu, onde as lacunas entre os fragmentos encontrados são preenchidas, ora pela materialidade, ora pelo olhar de quem vê. A frustração de não controlar a ferrugem ou de errar um ponto é ao mesmo tempo a janela que se abre para os vestígios de histórias que não se conhece.

A pele é presença e passagem. Está em construção. E como numa sala de estar, acho que para este lugar o importante é estar.

Que a narrativa iniciada não termine aqui de ser tecida.

Juiz de Fora, novembro de 2019

Memento

Bia Pena

Curadora e Arte-Educadora

Texto para a exposição "Memento"

Juiz de Fora, 2019

Nos deram mil palavras, algumas regras e instrumentos. Se somos capazes de externalizar pensamentos, de trazer para o "real" ideias, outros podem acessar este lugar-comum. Mas o pensar existe em mil pedaços e cada qual dialoga com uma dimensão do ser. Nesse sentido, talvez uma boa pergunta a se fazer seja: o que faz algo parecer o que é? Existe uma tragédia inerente à vontade de compreender e apreender a sensação de ser no mundo, a dificuldade de se entender e comunicar se estende entre os corpos como um abismo.

Mas existe tanto a se dizer quando não se diz nada.

Ao dedicar um espaço aos microposicionamentos das coisas, o artista Lucas Soares constrói pequenos abismos entre o simples e o complexo, o já conhecido e o que ainda não nos foi apresentado; onde as coisas acontecem por atravessamentos de ideias, sem necessidade de ação concreta. Para acessar esse abismo é preciso se dedicar à incerteza, acreditar que o mistério se dá na capacidade de alguma coisa estar continuamente se transformando. Aqui é necessário uma certa delicadeza em se ausentar para que o objeto se torne mais presente.
A palavra, a imagem e as formas são linguagem. As obras aqui dependem do lugar onde se fixam; seus corpos são apenas o início de uma conversa com o meio. Entre o que vejo e o que me olha, encontro um mundo em comum e possibilidade nas impossibilidades do que vivemos.

Sobre microposicionamentos das coisas

Mariana Couto Miranda

Arte-educadora

Texto para a exposição "Sobre microposicionamentos das coisas "

Juiz de Fora , 2019

© 2022 Lucas Soares

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