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Éran Òrún, 2021

Performance, foto-performance

 

Eran òrún, em Iorubá “carne do(e) pescoço”, se materializa enquanto um gesto. A violência colonial histórica e do cotidiano vivido condiciona nossas percepções, saberes, corpos e olhares. A distinção entre a cabeça e o corpo de um indivíduo, desde sempre foi atribuída ao corpo negro (corpo-ferramenta) em antítese ao “corpo universal” (corpo-pensante). Essa visão verticalizada, ocidental, se manifesta pela sublimação dos acontecimentos, nos fazendo olhar para cima mesmo quando as estruturas de poder nos condicionam a manter a cabeça abaixada. Me lembro aqui que, em Iorubá, òrun também é céu, mundo espiritual. Talvez, o pescoço possa ser uma via de passagem entre as dores, os carregos, as afirmações e as buscas de diferentes estrelas do céu ensolarado que nos toca.

Conforme o passar do tempo da ação, algumas pessoas se colocaram diante da situação, ao encontro do gesto. Neste momento figura o desejo: evidenciar o indivíduo em relação ao marco.

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"Estou com os pés queimados. O sol foi uma grande forma de testemunho para aquele momento. Meio-dia. Algumas pessoas fazem horário de almoço, outras estão ali somente a passeio. Uma mulher varre a praça enquanto conversa pelo zap. Duas crianças brincam correndo entre uma dúzia ou mais de pombos. Dois homens se banham em uma torneira quebrada. Algumas pessoas dormem em uma cabana improvisada – só consigo ver as pernas para fora, acho que são três. Um casal conversa enquanto come um Fandangos de presunto. Muitas pessoas passaram; e continuam a passar. Eu precisava estar descalço, tocar o chão e atritar meu corpo com o que sinto daquele lugar. Tudo o que tinha eram restos, pequenos fragmentos de um carrego. E quando vi estava lá, entre os azuis do céu e do mar e com os pés querendo bater uma laje: eram tijolos de barro cozido – alaranjados e enxutos –, e, interligados com as linhas verticais do detalhe do chão da praça, que pareciam vergalhões fantasmas, me faziam perceber o quão difícil é ficar de pé e olhar o movimento das fumaças dos carros, do hálito do calor, das pessoas que passaram por mim e que, provavelmente, nunca mais passarão. De maneira direta ou não, sentia que tudo estava conectado por meio dos pequenos gestos. E o teto de tudo isso é o limite mais próximo da porta fechada. Lâmpada? Janela aberta".

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© 2022 Lucas Soares

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